Lokanta, Lokanta

Lokanta, Lokanta!


A palavra turca ‘lokanta’ traduz-se por ‘restaurante’. Descobrimos esse termo semanas antes do embarque para Istambul, durante os preparativos para nossa visita à Turquia. Perambulamos pelos tradicionais sites de turismo, conferimos alguns guias e revistas disponíveis e demos uma olhadinha em vídeos no youtube, na linha do ‘Lugar Incomum’. Entre idas e vindas, chegamos ao caderno de turismo do jornal inglês ‘The Guardian’, onde encontramos uma lista com 10 indicações de restaurantes, num artigo intitulado ‘10 of the best lokantas in Istanbul’. Interessante e sugestivo, principalmente pelas caracteristicas do restaurante que encabeça tal lista, o Lokanta Çiya Sofrasi. Essa 'lokanta' carrega um estilo que muito nos interessa, comida boa, barata e sem frescuras. Ingredientes mais que suficientes para o rótulo de ‘boa pedida’.

A localização do Çiya Sofrasi assusta de bate pronto, o restaurante localiza-se no desprestigiado lado asíatico de Istambul, diametralmente oposto as principais atrações da cidade, concentradas em sua maioria em Sultanahmet e Beyoğlu. O caminho sugerido é pelo bosforo, o belo estreito que une todas as pontas da Istambul.

Direto e reto lá fomos nós, via ferry, da estação Eminonu para a Kadikoy. Passeio lindo de morrer, com uma vista indiscritível dos principais pontos turísticos da cidade, 15 minutos que sugerem as mais variadas divagações sobre a vida. Vimos de tudo, mesquitas, palácios, pescadores, belas pontes e embarcações aos montes indo e vindo, um passeio no mínimo encantador. 

Após o trecho marítimo, já em Kadikoy, enfrentamos alguns minutos de caminhada e pimbá, lá estávamos nós nas adjacências do Çiya. Meia duzia de quarteirões restritos aos pedestres e devidamente habitados por muitas lojas e restaurantes variados. Zanzamos pelas ruelas, passamos por peixarias, lojas de quinquilharias e vendinhas de ouro antes de alcançar o alvo desejado.

Logo de cara notamos a simplicidade ímpar do Çiya. Fachada sem mistério, estilo restaurante prato-feito do centro de São Paulo. No lado salão interno mesas mal espalhadas e duas boas surpresas: no lado esquerdo uma espécie de ‘chapeiro’ gerenciando os pratos quentes e no lado direito uma mesa com os tradicionais mezes aos olhos de uma turquinha simpática. No lado de fora, mesinhas no estilo bistrô-francês (que disparate!) dando cor e vida à porta de entrada. O bom tempo e a energia dos locais nos alocaram no lado de fora!

O cardápio é tentador, completo e perfeito se não fosse todo em turco. Inúmeras saladas, infinitos kebabs, incontáveis sopas, milhares de opções.

Começamos nossa aventura com uma visita despretensiosa à mesa dos mezes. De saída provamos o tzatziki (mistura de iogurte, pepino e alho), melitzanosalata (salada de berinjela), pantzarosalata (salada de beterraba), babaghanoush (pasta de berinjela) e o homus (conhecida pasta de grão de bico). Tudo em acompanhado por pão turco todo especial, fino como uma folha de papel, quentinho e bem temperado (ideia que roubamos discaradamente da mesa ao lado). Tudo fenomenal!

Partimos na sequencia para o principal, tarefa um tanto quanto desafiadora. Além da quantidade abissal de oferendas do cardápio, a comunicação com garçons foi resumida a gestos e boa vontade das partes envolvidas. Depois de encontros e desencontros, enfim optamos por uma grande esfiha que vimos passar mais de uma vez nas redondezas de nossa mesa. Composta por uma massa fina, carne moída, queijo e diversas especiárias locais, essa esfiha que mais parece uma pizza elipsoidal pelo tamanho e forma. Imponente, pesada, mas bem apetitosa.

Ainda com certa boa vontade, aproveitamos a visita para provar alguns dos bocados da mesa do tal ‘chapeiro’. Beliscamos dois ou três dos mais pedidos, com destaque especial para o kibe. Um kibe todo fofo, com uma casquinha uniforme e lisa, recheado com nozes, temperos locais e carne moída. Nota 1000, digno de brinde.

Encerramos o expediente com um pot-pourri de sobremesas indicadas por uma das funcionárias (aquela turquinha). Diversas frutas adocicadas, como compotas, acompanhadas por um creme de leite especial, denso e ligeiramente amargo. Melão, figo, laranja e outras identificáveis. Perfeito!

Todo festim regado com uma pedida previsível mas inevitável: garrafa de vinho local, duas taças (bem brutas) e um garrafão d’agua gelada.

Na volta mais divagações pelo mesmo bosforo, ainda mais impressionante e suntuoso que no caminho de ida ('god bless alcohol'). Não é atoa que esse lugar é citado por diferentes críticos que cobrem Istambul! De dar inveja aos ogros de plantão, com bom serviço, preço justo e comida de qualidade incontestável.

Díficil de recomendar. Impossível de esquecer.

Menção honrosa:

Lokanta Maya – Beyoglu. 'Nouvelle Turkish Cuisine', comida turca numa linha mais contemporânea. Excelente pedida.

Meze by Lemon Tree – Coração de Beyoglu, comida turca com os tradicionais mezes e pratos mais delicados. Espaço pequeno e aconchegante, estilo Bistrot.

Istambul Culinary Institute – Outra indicação testada e aprovada da lista do ‘The Guardian’. Beyoglu, uma graça de lugar com ótima comida.

Links relevantes:


Ciya Sofrasi Website

'Chapeiro' e seus bocados


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