Utopia em Avignon


Nossa passagem por Avignon foi coisa de cinema. Chegamos na capital cultural dos filmes independentes sem tantas pretensões cinematográficas; saímos de lá com nossos laços afetivos atados às idiossincrasias do cinema local. 

A saudade de arrebatar um cineminha com pipoca somada ao frio que permeava a região nas ante-vésperas do reveillon nos direcionaram à mais simpática rede de cinemas que conhecemos até então. Utopia, esse é o nome sugestivo que leva essa rede local.

Seu conceito é bem bacana, conferir mais espaço às produtoras independentes com filmes muitas vezes ignorados pelos super cinemas, sempre a preços acessíveis. Um projeto quase que utópico, viabilizado por um casal de franceses que, nadando contra correnteza mundial dos cinemarks-da-vida, buscaram democratizar aos moradores locais as boas pedidas que se perdem nas prateleiras de locadoras alternativas.

O cinema e seus entornos são pitorescos além da conta. Ele está localizado nas imediações da ex-fortaleza papal, é acessível somente por ruelas medievais, foi projetado com rabiscos típicos do século passado e encontra-se anexo a um típico bistrô francês. Impossível instalar-se por ali sem sentir aquela boa sensação de volta ao tempo.

Nos três dias que passamos por Avignon tivemos a insensatez de alocarmos quatro visitas ao estabelecimento. Duas dedicadas aos filmes em cartaz, uma para um rápido pit stop com cafezinho e cookies e uma última um tanto quanto especial, nosso reveillon.

Um pouco de contexto. Pesquisamos com carinho um lugar para celebrar não somente a virada mas também este ano especial em nossas vidas, afinal não é toda hora que terra, lua e sol alinham-se em torno de boas idéias. Ainda assim, sem conhecer o modus-operandi avignoniase, penamos até a definição do local ideal para a ocasião. As opções para o jantar de são silvestre, como os locais definem o jantar da virada, eram inúmeras, caras e aparentemente semelhantes. 

Reservamos e desreservamos um bocado de restaurantes antes de (sem querer querendo) descobrir que o hiper simpático restaurante anexo ao cinema Utopia também organizaria o são silvestre. Sem pestanejar remanejamos as reservas antigas dando um "fechado" à turma do cinema, o que de bate pronto aflorou-nos todos os sentimentos que remetem a sensação de missão cumprida.

Nos deparamos com algo ímpar, nada turístico, local e familiar, sem os fruque-fruques inflacionantes; um clima inesquecível no qual a ostentação abre espaço para algo difícil de compartilhar - sempre ela, a sutileza. O salão, espaçoso e rococó, abrigava um punhado de famílias e casais franceses que exalavam simpatia (bem diferente dos chatonildos habituês de paris). O staff, todo ele feminino, conferiram o tom acolhedor. E a comida, simples mas francesa, estava do jeito que o povo gosta, ousada sem exageros. Iniciamos os serviços com um "mignon" ravioli de fois gras, saboreamos um cincunstancial peito de peru recheado com legumes e finalizamos a jornada natalina com um tradicional "assiette de fromages". Tudo perfeito! 

Uma noite agradabilíssima, sem necessidade de retoques. Nossa ceia de 2015 ficará registrada em nossas lembranças como um memoroso curta metragem. E nossa passagem por Avignon, como um filme inesquecível. Foram 3 dias "utópicos", algo inimaginável, talvez fantasioso, quiça um sonho.

Ao amigos do Utopia, obrigado! À Avignon, au revoir e bonne anne!


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