Enfim os tais restaurantes thais...
Com a expectativa na estratosfera chegamos a um dos destinos mais promissores da viagem, Bangkok. Inebriados por relatos empolgados de amigos, posts da internet e aquele algo mais inerente a visita, Bangkok sem mesmo começar prometia entregar-nos experiências inesquecíveis. Planejamos 5 noites mas logo de bate-pronto vimos seu "tamanho", ajustando nossa jornada para uma semana completa. A idéia era fazer barba, cabelo e bigode, sem medo de ser feliz.
É difícil explicar o que Bangkok representa, é uma capital tão dinâmica quanto vibrante, totalmente cosmopolita e urbana, trânsito caótico, edifícios modernos colados em templos budistas inacreditáveis, feirinhas de rua para todos os lados, restaurantes para todos os gostos, street food e food trucks, os tuk-tuks, inferninhos e suas farlallinas, bochichos e mais bochichos, canais venezianos navegáveis, taxistas intragáveis, sol e céu azul.
A escalada Camboja-Vietnam-Tailandia foi perfeita para um bom entendimento da situação político-econômica do sudeste asiático. Camboja ressurgindo das cinzas em torno do turismo, o Vietnam adotando o modelo chinês antigo de crescimento via industria-exportação e a Tailândia enfrentando os desafios exclusivos de economias já estabilizadas mas todavia ávidas por crescimento e igualdade social, como o nosso Brasilsão.
Aliás, assim como nosso Brasilsão, politicamente os humores estão um tanto quanto alterados por aqui. De um lado uma corja populista encarnada no nome do ex-primeiro ministro, o tycoom Yingluck; sua política mirou na base da pirâmide, os fazendeiros do nordeste, maioritariamente plantadores de arroz. Ele drenou recursos públicos pra região, fomentando, entre outras frentes, infra-estrutura e subsídios. Em contrapartida conta com a fidelidade de grande parte do nordeste, que representa nada mais nada menos que dois terços do eleitorado. Do outro encontra-se uma classe média (que se auto-intitula) mais esclarecida. Os iluministas vamos dizer assim, a elite urbana encabeçando a turma do sudeste. Estes requerem mais participação política para colocarem em pauta medidas anti-corrupção e reformas que julgam inadiáveis. Além disso temos mais dois ingredientes que exoticam a situação. Um rei carismático que se segura para segurar a decadente monarquia tailandesa e um exército nada carismático mas com força política e pólvora. O carisma do rei confere os últimos lampejos de unidade à um país totalmente dividido; soma-se a isso, está para bater as botas, sua saúde muito preocupa a nação, isso por que seu filho primogênito é considerado pra lá de despreparado para empunhar a bandeira dos monarcas, mais pesada do que nunca. Com relação aos milicos, esses derrubaram o governo eleito em maio desse ano em meio aos protestos oposicionistas que tomaram conta das grandes cidades (foi o 12º golpe desde 1932, quando a monarquia deixou de ser a única mão operante). Com o apoio da elite tentam encontrar um ponto de equilibrio, a idéia é reformar a estrutura política, econômica e social do país antes de convocar novas eleições. É nesse contexto que aqui estamos!
Voltando aos pormenores locais, assim como nos compadres Camboja e Vietnam, (quase) tudo na Tailândia é oferecido no 'fair-price', a diferença básica é poder acessar os mais variados produtos e confortos numa cidade como Bangkok, barulhenta, moderna e cosmopolita. Uma coca cola estupidamente gelada sai por 1 dólar, um Big Mac quentinho não passa dos 3, uma boa corrida de taxi fica na casa dos 5 e uma roupinha "style" não chega a 15. Esses são alguns dos mil exemplos que poderíamos citar. Não é atoa que é considerada a capital mundial dos mochileiros.
Outro ponto destacável são as lojinhas de moda local, que incrivelmente rivalizam de igual para igual com as gigantes do fast-fashion como Zaras e H&Ms. As lojinhas locais são demais, peregrinando com paciência pode-se garimpar peças que fazem a diferença. Viramos dois habitués dessas lojinhas. Destaques para os complexos, Asiatique the Riverfront, Siam Center, Terminal 21 e Chatuchak Weekend Market. É uma demonstração que mesmo em um mercado globalizado há espaço para fragmentação; consumidores aparentam ter fôlego para correrem atrás de produtos menos "comoditizados" em busca do diferente, do individual, mesmo que tais produtos sejam ligeiramente mais caros e definitivamente menos acessíveis.
Com relação as comidas, enfim os tais restaurantes thais! Para quem está com a cabeça aberta, é isento de frescuras e gosta de comer bem, a Tailandia talvez seja a melhor pedida de todas.
"Encontrei uma incrível justaposição de ingredientes que caso não ministrada por profissionais poderia causar um desastre sem precedentes". Essas são as precisas palavras de um chef entusiasta da comida local, descrevendo a experiência de um belo jantar no Nahm, um dos mais badalados restaurantes de Bangkok. Vale para o Nahm mas vale também para a maneira como os tailandeses encaram a cozinha, apoiados no hashtag alegria-e-ousadia. Comer na Tailândia é tão fascinante quanto indescritível.
Além de Bangkok, passamos por Phi Phi Island e Phuket, duas ilhas que atraem milhares de viajantes em busca de praias ensolaradas e mares azul-turquesa, pontuados por formações rochosas que emergem surrealisticamente do oceano. Comemos bem em todos os restaurantes ou barraquinhas que nos propusemos a conhecer, em terras tailandeses a boa comida não respeita as fronteiras.
Vamos as boas experiências...
Localizado no meio de uma avenidona das mais movimentadas, eis que surge o genuíno Soul Food Mahanakorn (indicado pelo app "where chefs eat"). Restaurante discreto, pequeno, clima romântico casual, estilão bistrot. Perfeito para uma bela introdução à culinária Thai. De entrada, pedimos uma Crispy Morning Glory Salad composta por uma porção à milanesa de caules de uma flor nativa (a tal Morning Glory, que nada mais é que uma espécie de vagem) junto com um arranjado de camarão, porco, lula e cebola na linha sweet-com-pimenta. As pedidas principais foram duas, o tradicional prato 'Gaeng Massaman with Lamb', parte da lista de pratos a base de curry (simplificando, uma espécie de cabrito à caçador no estilo thai, muita pimenta, coentro e outros condimentos como um molhinho especial de peixe, pasta de tamarindo e sementes de cardamono) e uma costeleta de porco ao molho do chef, barbecue de tamarindo, novamente puxando pro sweet-com-pimenta; ambos deliciosos. Bom preço, ótima comida!
Carta marcada na lista dos 50 melhores restaurantes da Asia, o Nahm situa-se nas instalações do Hotel Metropolitan by Como, hotel chiquetê que confere ao Nahm um clima de funk-ostentação. Por princípios não costumamos dar bola para esses restaurantes mais pomposos por pressupor que são infestados de turistas, quando na verdade nossas energias estão voltadas a conhecer os restaurantes locais. Mas Bangkok, pelo fair-price disseminado de norte a sul, demanda certas ousadias. Um ato isolado de fanfarronice. Foi apoiado nesse pretexto que resolvemos conferir os dotes desse famoso chef Australiano, David Thompson. O restaurante é daquele jeito, na recepção um hoster bonitão, decoração hollywoodiana ultra bem acabada, meia luz tonalizando o ambiente e mármore pra todo lado, do jeito que o povo gosta, empacotadinho para os turistas de plantão. Começamos pelas saladinhas, uma sensacional 'green mango salad with grilled pork and sour leaves' complementada com uma espécie de rolinho primavera local, onde legumes variados e bem temperadinhos são envoltos por uma folha de árvore comestível, bem bacana. Os pratos principais foram os seguintes, "fresh tamarind relish with minced praws, pork and chillies with brased mackerel, deep fried quail eggs and fresh vegetables" e "stir-fried pork with dried praws, apple eggplants and chillie". Indecifrável, né? Pois é uma explosão de sabores realmente indecifrável. Perfeitamente apresentado e extremamente saboroso. Tudo bem apimentado na medida certa, quer dizer na medida certa para desentupir todos os poros e via respiratórias envolvidas na digestão. Inesquecível, pela comida e pelo preço.
Spicy Market, outro restaurante na linha do funk-ostentação, mas com um atenuante sugestivo. Apesar de fazer parte do complexo do Hotel Four Seasons é uma indicação do hostelworld.com na categoria excelência com preço justo. Servem pratos populares com a pitada de um chef. As pedidas foram a famosa e sempre bem vinda Papaya Salad e o não menos famoso Pad Thai de camarão, o tal prato nacional. Ambos muito bem ornamentados, na linha obra-de-arte, com sabores prá la de deliciosos. Aqui cabe uma pausa reflexiva. Se nos perguntassem a diferença entre os pratos servidos no Spicy Market e os servidos pelas donas marias na rua, diríamos que são pequenas as diferenças, sutilezas basicamente, muda-se algo ali, coloca-se algo acolá, adiciona-se ingredientes mais nobres que no final alteram o sabor mas mantém a essência. Mas... qual vale mais a pena? Resposta? Na Tailândia tudo vale a pena!
A comida de rua no Chatuchak Weekend Market foi ótima também; difícil dizer qual barraca é a ideal, a escolha tende a ser feita por pura intuição. Tem bastante tailandeses? Tem. O cozinheiro parece limpinho? Sim. Cheiro de comida boa? Tem. Pimba! Pedimos uma pad thai de camarão e um refogado de carne moída de porco com castanha de caju e legumes com arroz. O primeiro estava nos trinques e o segundo, apesar de boníssimo, encontrava-se "spicyalmente" apimentado, se é que me entende, do jeito que o baiano gosta! Haja coca-zero para rebater o fervor.
The Local Thai Cuisine, restaurante estilo classicão com uma pitada de modernidade, instalado numa grande casa com mesas ao ar livre, mesas internas, mesas no andar de cima, mesas no andar de baixo. Clima amigável e descontraído, mas sem ser 'Local'. Cardápio extenso dividido entre especialidades do chef e outros vários pratos Tailandeses. As pedidas foram um Pad Thai de frango e um estiloso picadinho Thai com um caldo pouco encorpado de caranguejo, acompanhado de arroz cozido integral. O Pad Thai nem impressionou nem decepcionou, ficou ligeiramente acima da média na saga sem freios que fizemos atrás dos Pad Thais; o segundo no entanto, encheu nos a boca de saliva, uma daquelas boas surpresas thais, sabores diversos, com condimentos indecifráveis. Antes de atestar nosso insosso paladar, anis foi uma certeza. Surpreendente, sempre.
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E foi mais ou menos assim que curtimos nossa passagem cultural-gastronômica pela Tailândia: poucos dissabores, diversas aventuras e infinitas recordações, todas elas registradas em alto relevo na memória. Como bem definiu o wikipedia, nosso indispensável parceiro de viagem, "a cozinha thai é conhecida por sua complexa interação de no mínimo três dos cinco sentidos do paladar indispensáveis para a confecção de uma refeição: ácido, doce, salgado, amargo e picante." Ácida, doce, salgada, amarga e picante, a Tailândia já nos deixa saudades!

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