Quando um sorriso vale mais que mil palavras...


Nada que pudessemos fantasiar foi suficiente para evitar o efeito-surpresa no desembarque no Camboja. Escolhemos Siem Reap, a capital cultural do país, conhecida por abrigar os mais belos templos do mundo, destino indispensável para quem perambula pela região.

Pousamos no meio da tarde, diante um sol já meio lateral que sugeria certo frescor. Sugeria! O calor na cidade era sufocante, conferindo um clima praiano mas seco; sem avisar o suor já nos escorria por todos os lados num genuíno clima de sauna a seco. Cansados e ensopados, rumamos pro hotel via Tuk Tuk, o taxi local, meio-moto-meio-carro-meio-charrete. Uma delicia, perfeito para quebrar o clima quente. Com o vento no rosto acalmando os nervos do calor incessante captamos as primeiras impressões da simpática cidade.

Os cambojanos carregam em sua história muito sofrimento, um tanto quanto tonificado pelo regime comunista conhecido como Khmer Vermelho, que governou (ironia!) o país entre 1975 e 1979. Na base do o-fim-justifica-os-meios, impuseram a força um comunismo agrícola que abalou toda e qualquer esperança de prosperidade. Essa turma foi responsável por um dos maiores genocídios de todos os tempos quando ponderado pelo tamanho da população, aproximadamente 2 milhões de pessoas foram dizimadas pela violência intransigível dos líderes locais. Pol Pot foi o mentor dessa bagunça, não é atoa que vira e mexe ele aparece na lista dos homens mais malvados de todos os tempos, rivalizando com figurões do quilate de Hitler, Himmler, Caligula e outros.

Ainda assim, apesar dessa apachacante tragédia, os locais aparentam ter relativisado o passado deixando as magoas de lado rumo a um lugar ao sol. Apoiados no lema bola-pra-frente-que-atrás-vem-gente a esperança é ingrediente obrigatório no dia a dia local, o futuro opõe-se ao passado prometendo ser próspero!

Os bons indicadores mostram uma economia em progressão, ritmo anual de crescimento acelerado nos últimos 10 anos apoiado em três pilares principais: normalização política, estabilização econômica via dolarização, que contrariando o bom senso dos economistas conferiu equilíbrio monetário (esse artigo explica isso em mais detalhes, "The Cambodiam Case for Dollarization", Wall Street Jornal) e turismo (leia-se o complexo de Angkor).

Isso deu condição aos jovens gozarem oportunidades, eles encontraram brechas no corrido dia a dia de casa-trabalho para investirem em educação, ingressando em universidades e cursos  profissionalizantes. Siem Reap, cujo número de universidades era ZERO pouco mais de 10 anos atrás, hoje conta com inúmeras instituições educacionais. Lemos um artigo bacana do New York Times que nos deixou comovidos, "Near Cambodia's Temple Ruins, a Devotion to Learning".

O sorriso e a gentileza é a marca registrada do povo cambojano. Num país onde pobreza é regra, essa acolhedora energia foi fundamental para que aproveitassemos sem receios os atrativos da cidade. Ficamos 5 noites por lá, curtimos cada dia intensamente, sempre nos surpreendendo com sutilezas do dia a dia; o circo teatral emocionante, os templos mastodônticos, a parte central super arrumadinha, as feirinhas noturnas cheias de vida, os artesanatos locais bacaninhas, os tuk-tuks e, claro, os restaurantes! 

Bizolhando alguns blogs e sites especializados já tínhamos uma vaga idéia do apreço dos kymers pela culinária, mas não imaginávamos encontrar algo pronto, moldado pra turistas. Os cambojanos tem a mão boa para comida! Pela curiosidade em conhecer novos ingredientes, sabores e condimentos, fomos longe, topamos um curso de culinária ministrado pelo restaurante Champey, um desses bacaninhas, conhecidos de todos. Dica do google. Gastamos 3 horinhas entre visitar ao mercado central, confeccionar  três pratos e arrematar um belo "self-made" almoço. Valeu a pena, ali fomos apresentados a alguns dos pratos locais - rolinho de arroz recheado de vegetais, o famosão Amok e banana flambada com maracujá foram os pratos do dia. Assim como na Malásia, mexemos com ingredientes assemelhados aos do nordeste brasileiro. Leite de coco, farinha, pimenta, amendoim e outros. A diferença positiva é a leveza da culinária cambojana, rara em terras nordestinas. Aqui pode-se encontrar uma bela salada cheia de trique-triques em quase todos os lugares.

Dois restaurantes que nos marcaram, tanto pela comida quanto pela história, foram Genevieve's e Haven Training Restaurant. Ambos servem pratos sensacionais a preços acessiveis; os detalhes gastronomicos ficam para uma próxima vez, hoje direcionamos foco para o ideal e a concepção dessas duas boníssimas pedidas.

Genevieve's é fruto de uma homenagem pra lá sensível de um coroa australianão hiper simpático, Mr. Phil. Em Siep Reap ele encontrou conforto para acolher seus sentimentos; após a perda da esposa para o câncer abdicou da vida na Australia para se instalar no Camboja. Chegou cheio de boas intenções! Sem qualquer experiência no ramo deu vida a um restaurante com uma turma de  locais, ensinando inglês aos 15 membros do staff e dedicando parte dos lucros à instituições de caridade. A idéia era aprumar o rumo de um barco completamente sem destino. A solução foram os ventos cambojanos. Hoje ele encabeça a lista de restaurantes do Tripadvisor. E Genevieve, a esposa, empresta o nome para essa bela homenagem. 

Haven Training Restaurant também impressiona pelo conceito. A história é mais ou menos assim. Um casal de mochileiros suíço num giro de 2 anos mundo afora estacionou por 7 meses em Siem Reap. Lá trabalharam em um orfanato oferencendo mão na massa ao dia a dia e aconselhamento para levantamento de fundos. Se envolveram com a causa, juntaram funding, acumularam energia e deram aquela guinada. Hoje mantém um restaurante-escola hiper reconhecido que abastece um satélite pra lá de nobre, a fundação Dragonfly, cujo foco é dar oportunidades para jovens carentes da região. É mole?!

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