Dragão com pinta de tigre
O cenario é o seguinte. Estamos em Yangshou, cidade bucólica no sudeste da china, amontoados entre turistas multi-regionais, ansiosos e mal posicionados numa fila anárquica cujo objetivo é nos embarcar em gôndolas de bambo num passeio costumeiro da região. Chineses aos berros balbuciam onomatopeias indecifráveis com capacidade impar de alimentar a apreensão alheia. O rascunho do bagunça se desenha em nossas mentes, reforçando o certeza de erro e consequente frustração. E assim, sem mais nem menos, pimba, tudo se acerta como feitiço, as engrenagens se encaixam e, felizes, os turistas ficam cada um na sua. "This is an organized chaos" bem definiu um australiano que habitava nossa região. A china é isso! Um bilhão de pessoas geridas como manadas pelas maos de ferro enfelpadas de veludo do governo comunista.
Em 20 dias pudemos conhecer um pouco da infinita história da civilização mais antiga do mundo. Fomos de Ming, passamos por Qing e chegamos na atual estrutura na qual se apoiam os chineses, um comunismo com asas de dragão! Passamos por Shanghai, Pequim, Xian, Guillin, Yangshou e Hong Kong. Caminhamos entre aranhas-céus modernistas, perambulamos por ruas tipicas, nos deparamos com boas surpresas e esbarramos em desagradáveis desaventuras. Chegamos carregados de preconceitos que se esvaíram sem pressa, em ritmo de ampulheta.
Saímos com a impressão de que os ditadores-comunistas vão longe. Apoiados em anti-corrupção, objetivos de longo prazo, agilidade nas decisões e alto crescimento, eles tocam o pais pra frente num ritmo alucinante. Por onde passamos eram andaimes e guindastes para todo lado. Impressionante. E impressionante também o moral do titio Mao Zedong. Alem de rotular o dia a dia de todos com sua repugnante cara de bolacha assassina estampada em todas as notas de yen e ser carta marcada em todos os souvenirs chineses, seu mausoléu leva dia a dia milhares e milhares de pessoas para reverencia. Os números não são claros (como tudo na china) mas em 4 anos de massacre dezenas de milhões de pessoas pagaram com a vida a conta da tal "Liberation". Ignorância ou aprovação incondicional? Provavelmente um mix dos dois.
A visita da China nos marcou em vários sentidos; o povo é sofrido, surrado, alheio talvez, mas aparentemente alinhados em um objetivo comum: tirar o atraso em termos de desenvolvimento por demorarem a se juntar ao 'estabilishiment' mundial.
A china se abriu ao mundo faz poucas décadas e a sociedade chinesa paga um preço alto pela vista grossa às mudanças estruturais que estavam acontecendo no ocidente; apesar de serem a 2ª economia do mundo, a renda per capita é assustadoramente baixa. Ainda assim é bem provável que eles cheguem lá! Metade da população está todavia instalada no campo, o que nos remete a pensar que tem muito crescimento por ai.
O nosso parceiro de viagem, o enviesado diário China Daily, não fala em outra coisa que as chaves do crescimento; todas as energias estão apontadas para o incremento de produtividade. Ademais, há um enorme incentivo do governo em educação, principalmente pesquisas e inovação. É comprar uma boa pipoca, acomodar-se numa poltrona confortável e ver trem passar. Em 20 anos a China será outra China.
Na mesma linha dos comentários nipônicos, segue na sequência um pot pourri democrático das nossas impressões...
O nosso parceiro de viagem, o enviesado diário China Daily, não fala em outra coisa que as chaves do crescimento; todas as energias estão apontadas para o incremento de produtividade. Ademais, há um enorme incentivo do governo em educação, principalmente pesquisas e inovação. É comprar uma boa pipoca, acomodar-se numa poltrona confortável e ver trem passar. Em 20 anos a China será outra China.
Na mesma linha dos comentários nipônicos, segue na sequência um pot pourri democrático das nossas impressões...
Puxa vida...
Buzina: os chinas a-d-o-r-a-m uma buzina! O transito é meio louco e eles metem a mão ali sem ponderação, de 5 em 5 segundos, como buzinar fosse tão necessário quanto acelerar.
Cuspes e afins: as catarradas, rungidos e latidos são frenquentes; mas com o passar do tempo a gente vai acostumando e hora ou outra nos flagramos reproduzindo o maldito som do puxa-pigarro.
Banheiros: é bem tenso ir em banheiro publico. Mesmo em shopping de grife a coisa complica. Tentamos a técnica da apneia mas não obtivemos sucesso, saudade dos japas.
Comida cheirooosa: tem alguma comida que não sabemos qual é cujo cheiro assusta, algo como refogado de rabo de macaco ao bafo de bode. Deixa qualquer um com estomago virado. Você está caminhando tranquilamente por uma ruela super bacana, circundadas de foodtrucks atrativos, surge o desejo de experimentar algo mas, lá vem ele, o tal do cheiro que acaba com qualquer tentativa de reaproximação.
Furar-filas: entrar no metrô como loucos sem relógio é típico dos chinas. Onde há fila, há disputa olímpica. Ponderando que eram uma sociedade agrícola até pouco tempo atras, perdoa-se.
Censura na internet: incabível nos anos de hoje, irrita a ponto de estragar o dia. Parece besta mas quase enlouquecemos sem noticias, sem wikepedia, sem google, etc.
Niiiiice...
Atrações turísticas: sempre muito bem organizadas, com boa parte das legendas em inglês, mesmo em cidades menos representativas
Preço justo: talvez seja até barato demais, alimentação e transporte populares beirando o grátis.
Povo trabalhador: oxalá como trabalham. Apesar dos escassos sorrisos e bruteza no trato, a galera é incansável. Com formigas atravessam oceanos para os afazeres profissionais.
Transporte: nota 10, metrô e ônibus por todo canto. E vem muito mais por ai. Um dos trending topics é mobilidade urbana.
Violência zero: é uma pena classifica-la como positivo, mas fazer-o-que, somos da Pindorama.
Ruas da bagunça: lojinhas, tranqueiras e comida de rua: tudo junto! Pura diversão.
Brinquedos: os chinas sao incriveis, nos vimos crianças varias vezes hipnotizados por aviaozinhos decontrole remoto ou cacarecos voadores.
Yaksobas e fritadas de arroz: Sensacional! Com a cabeça aberta e estômago sob-aviso, comemos muito bem na China. Eles são mestres nos mexidoes. Sabendo escolher (não é facil) a felicidade está garantida. Coca-zero em mãos para rebater a picância é indispensável.

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