Please, no double dipping!!!

Em Fukuoka fomos abordados por duas simpáticas japonesas militantes da igreja católica. A cena foi mais ou menos assim. Estávamos sentados com os pés pra cima, no prumo do sol, digerindo uma bandejinha de sushis enquanto curtíamos a bela atmosfera do notável Ohori Park quando (do além?) duas japastoras interromperam nosso silêncio.

Até a despedida, regada de conselhos religiosos, conversamos por cerca de 10 minutos sobre um pouco de tudo, um bate-papo meio sem rumo mas sobretudo agradável. Já informadas de nosso itinerário, além de dicas locais, elas compartilharam sugestões a respeito das nossas próximas paradas. E uma dessas dicas fez-se valer, os espetinhos (pros locais, kushikatsu) de Osaka. 

Guardamos a dica a sete chaves e assim que desembarcamos em Osaka ficamos atentos, sabíamos que hora ou outra iríamos ter a chance de transformar teoria em prática.

Controlamos a ansiedade que nos preenchia de tentação em logo experimentá-los; isso pois o indescritível centro comercial da cidade oferece diversas opções. E valeu muuuito a pena não queimar a largada. Foi sem querer querendo que conseguimos provar os tais kushikatsus em um restaurante hiper local, o que transformou a experiência em algo genuíno.

Contextualizando, Osaka, como toda cidade grande, divide-se geograficamente entre burguesia e proletariado. E foi nesse lado mais laboral (vamos dizer assim) que nos deparamos com uma ruela movimentada, onde a vida gira em torno de uma realidade menos abastada. Gaturnos, velhos, freaks e sem tetos somam-se aos cidadãos comuns para compor a vizinhança. 

O restaurante, cujo nome é indecifrável, é tão simples quanto sensacional. Um balcão retangular com chapeiros de um lado e clientes do outro, além de algumas poucas mesas preenchendo o pequenino salão. Junto com os espetinhos, sake, cerveja e cigarro mantém a turma bem animada, o som ambiente advém das conversas fora de tom e dos pedidos em alto e bom som das garçonetes japonesas, tão educadas quanto barulhentas.

A grosso modo, o cardápio divide-se em dois: espetinhos budget por 105 yens a unidade e espetinhos mais pomposos, por 210 yens. As opções são quase infinitas, costela de porco, almôndega de frango, abóbora, batata doce, skitake, ovo de codorna, atum, camarão, polvo, bambôo, alho e muito mais. Todos eles a milanesa, aquela milanesa perfeita, na linha comida de vovó com um toque japonês. O complemento é um molho especial a base de shoyo servido em um baldinho de alumínio fundo onde mergulha-se o espeto - uma única vez! - antes da mordida fatal.

Comemos ao menos dez espetos, tomamos duas mini-garrafas de saque e interagimos com os vizinhos; divertido a beça! Tudo por menos de 30 dólares.

E assim foi nossa despedida do Japão. No bairro mais desregrado de Osaka a única regra que tivemos que respeitar estava descrita em letras cavalares nos quatro cantos desse grande achado: "PLEASE NO DOUBLE DIPPING". Simplesmente genial.

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